Quem é o culpado das mortes par COVID no Brasil ?
o objeto deste estudo é a unicamente a validade da hipótese afirmando que Bolsonaro seria culpado por três quartos das mortes por COVID. A validade ou não das estratégias de combate defendidas por Jair Bolsonaro não fazem parte da discussão.
Assim, quis investigar a origem dessa afirmação, quem são esses especialistas, se a afirmação é justificada e verdadeira e se Bolsonaro é o único culpado.
A resposta, muito provavelmente, pode ser encontrada na seção de cartas ao editor da revista The Lancet [1], enviada por Pedro C. Hallal, um pesquisador epidemiologista brasileiro da Universidade de Pelotas – RS.
Brazil’s tragic COVID-19 policy comes with a price. With 211 million people, the Brazilian population represents 2,7% of the world’s population. If Brazil accounted for 2,7% of global COVID-19 deaths (ie, performing as the global average in fighting the pandemic), 56 311 people would have died. However, by Jan 21, 2021, 212 893 people have died from COVID-19. In other words, 156 582 lives were lost in the country because of underperformance. Attacking scientists will definitely not help solve the problem.
Portanto, o autor utiliza uma simples « regra de três » para estimar o número esperado de mortes, com base no número de óbitos e na população mundial, bem como na população do Brasil. Assim, ele « afirma » que três quartos das mortes resultam de um « desempenho abaixo do esperado » (um eufemismo), que ele atribui inteiramente a Bolsonaro.
Este cálculo é excessivamente simplista e, sobretudo, errôneo, uma vez que o número de casos e de óbitos depende, para cada país, primeiramente, da agressividade da doença e, em segundo lugar, da sua capacidade defensiva (infraestrutura hospitalar, fatores políticos, etc.). E isso varia de país para país. Depende também da qualidade dos relatórios. O seu raciocínio seria aceitável se esses parâmetros fossem idênticos em todos os países. A isso adiciona-se o fato de ser uma doença de caractéristicas desconhecidas. Um parâmetro comumente aceito é o numero de mortes por milhão de habitantes.
Em 2021, Adrian Mundt ja criticava no mesmo jornal [1b] indicando algumas falhas no método utilisado por Pedro Hallal.
Para verificar a plausibilidade dessas afirmações, repetiremos os mesmos cálculos para um pequeno número de outros países. O autor não menciona a fonte desses dados: utilizaremos o Worldometeres [2], que publica dados oficiais para cada país e fornece um resultado para o Brasil consistente com o seu. Trata-se dos dados oficiais do final da pandemia.
Vinte países foram escolhidos entre nossos vizinhos na Europa e alguns outros com populações significativas. Utilizaremos 8,1 bilhões como população mundial e 7,011 milhões como o número total de mortes em todos os países, resultando em uma média global de 865,5 mortes por milhão de habitantes. Os resultados estão na tabela abaixo.

Que observações podem ser feitas sobre esta tabela?
- O resultado para o Brasil obtido pelo autor durante a pandemia é consistente com os dados atuais. Os dados daquela época não estão mais disponíveis.
- As amplitudes de variação nas duas últimas colunas indicam que o impacto da pandemia está longe de ser uniforme. Do ponto de vista estatístico, usar simplesmente a média de dados com variação significativa como estimativa não faz sentido.
- Vários países apresentam resultados semelhantes aos do Brasil: França, Itália, Grécia, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Rússia, etc. Seus líderes podem ser acusados de má gestão da pandemia ou de atacar a ciência, como faz o autor com o Brasil? Por que, de fato?
- Os dois países mais populosos apresentaram um número de mortes muito abaixo da média, embora juntos representem 35% da população mundial. Esses números muito baixos reduzem a média de mortes e, consequentemente, aumentam a proporção de mortes em relação à média. Se removermos os dados desses dois países, o resultado para o Brasil cai para 62%.
- Para estimar o número esperado de mortes, seria necessário, antes de mais nada, avaliar a agressividade do vetor viral no Brasil, bem como sua capacidade real de defesa. Isso é uma incógnita, e qualquer hipótese que não leve isso em consideração é, por definição, falsa.
- Todas essas informações estavam disponíveis quando P. Halal escreveu o seu artigo. Pode-se questionar por que ele não as utilizou. Seria porque uma análise completa distorceria o argumento pretendido?
Portanto, a análise baseada nesses dados, conduzida por esse pesquisador, é falha.
Assim, vejamos as críticas dirigidas a Bolsonaro e tentemos identificar outras causas de mortalidade.
- Seu apego à Hidroxicloroquina e à Ivermectina como tratamento precoce. Ele foi um adepto da proposta do médico pesquisador francês Didier Raoult. Isso foi considerado ser um erro, já que esse medicamento não havia sido validado cientificamente. Não se pode esquecer que, na época, Didier Raoult era um pesquisador com incontestável reputação, portanto credível.
- Oposição à vacinação – Bolsonaro era pessoalmente contra a vacinação e deixou isso claro para os seus apoiadores. Mesmo assim, ele tomou as medidas necessárias para disponibilizar a vacina assim que aprovada pela ANVISA, órgão regulador (17 de janeiro de 2021), antes de vários outros países.
- Oposição ao confinamento estrito — esta pode ser uma má ideia, mas é compreensível pois Bolsonaro não se opunha se praticado de forma flexível. A taxa de emprego informal (não declarado) gira em torno de 40% da população economicamente ativa, com aproximadamente 40 milhões de pessoas nessa categoria [3][4]. Se essas pessoas permanecerem desempregadas, perderão automaticamente a sua renda, e o Estado não poderá compensar tal nível de dependência. Um ponto de vista discutível, certamente, mas não sem mérito. Além disso, esse tema é amplamente discutido, por exemplo, em [5] e as suas referências.
É interessante notar que, dada a postura política de direita de Bolsonaro, foi a esquerda na França que adotou a mesma atitude. Jean-Luc Mélenchon, líder do partido La France Insoumise (LFI), opôs-se à vacinação por ser baseada em RNA mensageiro. Para justificar sua posição, chegou a argumentar: « Tendo vivido por muito tempo no Jura, terra natal de Pasteur, sei o que é uma vacina » (sic). François Ruffin, membro do LFI, opôs-se ao confinamento, incitando os franceses a se rebelarem e desafiá-lo, argumentando que o confinamento infringia a liberdade de movimento. No entanto, ninguém acusou esses políticos de atacar a ciência, de « genocídio » ou de « crimes contra a humanidade », como fez a esquerda brasileira.
Vamos agora discutir os outros fatores que impactaram negativamente a gestão da pandemia. Como muitos países, o Brasil sofreu muito com esse evento inesperado. A falta de recursos e um sistema de saúde deficiente obrigaram a construção de hospitais de campanha ou a aquisição de diversos suprimentos: respiradores, máscaras, medicamentos, etc. Isso criou inúmeras oportunidades para erros de gestão, inclusive improbidade administrativa. A esses fatos adiciona-se o ambiente politico extremamente dividido. Citarei alguns exemplos, não exaustivos, emblemáticos.
- Pedro Hallal menciona a escassez de oxigênio em Manaus, capital do estado do Amazonas, mas não conta toda a história. Quando o Ministro da Saúde visitou Manaus, tomou conhecimento do problema e providenciou a adaptação de aeronaves militares para transportar cilindros de oxigênio até a cidade. Entregar esse tipo de produto na Amazônia por via terrestre é impossível. Essa adaptação levou uma semana. Mas a questão mais grave é que o governo do estado do Amazonas encomendou respiradores para COVID-19 de um comerciante de vinhos que não tinha experiência com esse tipo de produto. Os respiradores foram entregues, mas não estavam adaptados para COVID-19 e tinham um superfaturamento de 500% [6].
- O governador do Rio de Janeiro e o Secretário de Saúde do Rio de Janeiro foram exonerados por irregularidades administrativas na compra de um hospital de campanha e de respiradores [7].
- O Consórcio do Nordeste, grupo de compras que representa os estados do Nordeste brasileiro, encomendou 300 respiradores sem licitação de um distribuidor de produtos de Canabidiol (CBD). O pedido foi pago antecipadamente, no valor de 48 milhões de reais (aproximadamente 10 milhões de euros). Nenhum respirador foi entregue e o pagamento antecipado não foi reembolsado. O diretor do consórcio era o governador da Bahia e atualmente é ministro no governo Lula. Uma investigação judicial continua em andamento. [8] [9].
- Falta de suprimentos (mascaras, oxigênio…) em alguns estados. A gestão de estoques é responsabilidade dos estados e nao do governo federal. O governo federal não tem como adivinhar que os estoques desses produtos estão abaixo do desejável se não houver informação vinda de baixo. É o caso mencionado pelo autor em Manaus.
Em 15 de abril de 2020, menos de um mês após o início da pandemia, não confiando no governo federal, alguns governadores estaduais obtiveram autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para definir, pelo menos parcialmente, sua própria estratégia de gestão da pandemia [10] [11]. É inegável que, a partir desse momento, os governadores se tornaram corresponsáveis pelo número excessivo de mortes nos seus estados.
A questão permanece: qual o verdadeiro número de mortes que poderiam ter sido evitadas, visto que a estimativa do autor está errada? E também, qual a verdadeira extensão da culpa atribuível a Bolsonaro e àqueles que se envolveram em má gestão ou improbidade administrativa? Esses números são impossíveis de estimar.
É possível também que Bolsonaro tenha sido mal-aconselhado, inclusive por médicos e cientistas.
O evento da pandemia foi um exemplo infeliz de espetáculo de ativismo político, tanto da direita como da esquerda, inclusive por cientistas. Cada lado, carente de pensamento crítico, só enxergava as falhas do outro. Isso fica evidente neste artigo. Isso impediu qualquer diálogo construtivo e também pode ter sido a causa de muitas mortes.
Dezoito meses após essa publicação inicial, Pedro Hallal retorna com uma nova carta, desta vez com um tom muito mais político e ativista [12]. O que você precisa de saber é que o país está completamente polarizado, e as discussões se tornaram apaixonadas e tendenciosas. Se você quer saber a verdade, precisa de ser muito cauteloso e não aceitar apenas as explicações de um lado.
Em conclusão, pode-se dizer que Bolsonaro, por meio das suas opiniões, pode ter influenciado os brasileiros e ser responsável por algumas mortes, mas certamente não é o único culpado. Além dos fatos que poderiam ser imputados à Jair Bolsonaro, devemos citar a corrupçao e disputas ideologicas. Afirmar que Jair Bolsonaro é o unico culpado é, no minimo, desonesto intelectualmente.
Vimos que o problema é mais complexo do que pode parecer e esta analise rápida ainda seja incompleta. Nada disto é mencionado por Pedro Hallal que não poderia ignorar. Infelizmente, o resultado de um trabalho mais militante que cientifico obteve uma difusão grande dando argumentos para aqueles que desejavam « crucificar » Bolsonaro.
Références
[1] Hallal, Pedro C. SOS Brasil – Science under attack – The Lancet, Volume 397, Issue 10272, 373 – 374.
[2] Worldometers.info – Worldometers.info – Coronavirus
[3] Estadao Economia : IBGE aponta que a ocupacao informal ainda supera 40 milhoes no pais
[4] IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) – Desemprego informalidade subutilizacao e inatividade – Retrato das desigualdades de gênero e raça
[5] Byttebier, K. (2022). Covid-19’s Impact on Labour. In: Covid-19 and Capitalism. Economic and Financial Law & Policy – Shifting Insights & Values, vol 7. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-030-92901-5_7
[6] Metropoles – Governador que comprou respirador inútil paara covid segue impune
[7] g1.globo – Tribunal aprova por unanimidade iampeachment de Witzel, que fica inelegível por 5 anos
[8] Veja – Inquérito sobre respiradores na pandemia, que tem ex-ministro de Lula como suspeito, volta ao STF
[9] Poder360 – Procuradoria pede que investigaçao sobre Rui Costa volte ao Supremo
[10] STF – STF reconhece competência concorrente de estados, DF, municípios e União no combate à Covid-19
[12] Hallal, Pedro C. SOS Brazil: democracy under attack – The Lancet, Volume 400, Issue 10349, 355, .