{"id":946,"date":"2022-03-12T18:09:22","date_gmt":"2022-03-12T17:09:22","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/?p=946"},"modified":"2022-04-18T23:23:56","modified_gmt":"2022-04-18T21:23:56","slug":"finisterra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/2022\/03\/12\/finisterra\/","title":{"rendered":"Finisterra"},"content":{"rendered":"<p>Somos irm\u00e3os, Lucenne e Jos\u00e9-M\u00e1rcio. Nascemos em Campo Grande, terras encharcadas, aquelas terras que escancaram suas portas para as \u00e1guas do rio Paraguai formando assim desenhos transparentes cobertos de tintas azuis das \u00e1guas e verdes das matas : o Pantanal do Brasil. Viemos ao mundo atrav\u00e9s de pais que nos ensinaram que a alegria e a coragem \u00e9 sa\u00fade para a vida toda. Eles s\u00e3o o nosso porto. Fomos criados rente ao ch\u00e3o, aprendendo a viver com coisas simples, vendo a beleza em coisas singelas.<\/p>\n<p>Como foi a nossa infancia ? Que eu me lembre foi normal&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; em desordem alfab\u00e9tica e cronol\u00f3gica:<\/p>\n<p>Papai fazia polvo cozido no fog\u00e3o a lenha; brig\u00e1vamos pelos camar\u00f5es do risoto da mam\u00e3e; a galinha tinha v\u00e1rios cora\u00e7\u00f5es mas s\u00f3 duas coxas; o bife de f\u00edgado acebolado; \u00f3leo de figado de bacalhau; papai sentava na cabeceira da mesa, mam\u00e3e \u00e0 direita e eu ao lado dela, Helena em frente e Lucenne na outra cabeceira; no quarto dos velhos tinha uma rede; quando era necess\u00e1rio eu me escondia atr\u00e1s do guarda-roupa (para n\u00e3o apanhar); papai dizia : \u00ab\u00a0a \u00e1gua, dia sim dia n\u00e3o, sobe por gravidade e enche a caixa de \u00e1gua\u00a0\u00bb; \u00ab\u00a0o diabo que te carregue\u00a0\u00bb; \u00ab\u00a0Deus n\u00e3o castiga ningu\u00e9m, a pessoa que busca seu pr\u00f3prio castigo\u00a0\u00bb; \u00ab\u00a0n\u00e3o puxo o saco de bode\u00a0\u00bb; \u00ab\u00a0Bugra (apelido da Lucenne), h\u00e1s de vagar no purgat\u00f3rio feito morcego\u00a0\u00bb; \u00ab\u00a0Mira (era assim que papai chamava mam\u00e3e), o telefone do picareta\u00a0\u00bb; \u00ab\u00a0Esse ai vai morrer t\u00e3o seco que nem urubu vai querer dar uma bicada no rabo dele\u00a0\u00bb; papai dizia a coisa certa na hora errada; o pesco\u00e7o de peru na casa da tia Auristina; \u00ab\u00a0n\u00e3o arranque p\u00e1ginas deste caderno\u00a0\u00bb; o banho no tanque do quintal da vov\u00f3 era uma festa; exceto a sala de visitas e o quarto da vov\u00f3, todas as pe\u00e7as n\u00e3o tinham forro : via-se as telhas; a cozinha da casa dela tinha um fog\u00e3o \u00e0 lenha no centro da pe\u00e7a e a cor dos muros era verde escura; papai era vi\u00favo e amigo do meu av\u00f4, minha m\u00e3e era a filha mais nova e n\u00e3o podia se casar para cuidar dos velhos. Papai perguntou : \u00ab\u00a0Manuel, a tua filha Palmira&#8230;?\u00a0\u00bb. \u00ab\u00a0Vamos la em casa que minha filha vai tocar piano para voc\u00ea\u00a0\u00bb. Papai comprou um anel de brilhante, casaram-se e fizeram-nos; vo Prazerinhas (o nome era Maria dos Prazeres) era casada com Manuel Lopes Martins e tiveram 11 filhos : Eliodoro, Raul, Isaura, Elisa (faleceu de pneumonia em Sao Jos\u00e9 dos Campos), Marciano, Eduardo, Silv\u00e9rio, Pl\u00e1cido, Maria dos Prazeres (Menina), Palmira (nossa mae) e Enedino (Penduradinho); v\u00f4 Manuel Lopes tinha uma oficina mec\u00e2nica : constru\u00eda barcos e fazia manuten\u00e7\u00e3o de motores dos barcos que circulavam no Rio Paraguai; depois da sua morte deram o seu nome \u00e0 um liceu profissional de C\u00e1ceres; papai nasceu em Portugal, Praia de Ancora em 1899. veio ao Rio de Janeiro com av\u00f4 Silvino em 1913. Meu av\u00f4 era mestre de obras na reforma do Museu da Quinta da Boa Vista; contava que gostava de ficar olhando o meteorito Bendeng\u00f3, mas tinha medo das m\u00famias eg\u00edpcias; tomava banho pelado em Copacabana e comprou um terreno na zona sul. Vendeu o terreno e comprou passagem de volta para Portugal. Sobraram alguns trocados; voltou \u00e0 Portugal em 1918 e cumpriu o servi\u00e7o militar no Exercito Portugu\u00eas, em Angola. Era cabo em um presidio; contava que estando de servi\u00e7o, fez entrar um garraf\u00e3o de vinho e embebedou toda a guarda. Levou um esporro; se mudou para o Brasil em 1926, e comprou um rel\u00f3gio Omega de algibeira; a mulher e o filho mais velho, Edmundo, vieram no ano seguinte; ele, papai gostava de nos contar as perip\u00e9cias dele. Sempre muito s\u00e9rio; quando eu estava no prim\u00e1rio a professora falando de militares, eu levantei o dedo e disse : \u00ab\u00a0O meu pai serviu o exercito, chegou at\u00e9 cabo\u00a0\u00bb; papai explicando o caminho para o motorista de t\u00e1xi : \u00ab\u00a0vamos na Ant\u00f4nio Maria Coelho, 60 metros depois da Pedro Celestino\u00a0\u00bb; os cajus s\u00e3o sagrados; o doce de estrelas da vov\u00f3 Prazerinhas; a fazenda Ressaca em C\u00e1ceres e a viagem at\u00e9 la; frango com farofa nas viagens de trem; o Clube Atl\u00e2ntico era perto, a piscina era de cimento e o papai nadava de lado; \u00edamos na Rural Willys do seu Barbosa (ele era relojoeiro), eu e Lucenne \u00edamos la atr\u00e1s e a estrada era de terra; as cortinas feitas com tampas de Kolynos na casa da tia Isaura, a gente dizia que era cortina de puteiro; o doce de caju em caldas da tia Isaura; em um almo\u00e7o na casa da tia, mam\u00e3e caiu de pernas para cima quando se sentou numa cadeira de lona, depois do almo\u00e7o. O culpado era o bugrinho que tirei o pauzinho que prendia a lona mas n\u00e3o imaginava que a vitima seria ela. N\u00e3o me lembro se apanhei; tia Isaura me prometeu doce de caju se eu juntasse tampas de tubo de pasta de dente para ela. N\u00e3o deu tempo pois ela faleceu antes; Lucenne de castigo porque foi com a filha da tia Isaura passear de barco no rio Paraguai; o Ernani, filho do tio Enedino era prefeito; o medo do Ij\u00f3; o carro preto do vov\u00f4 Manoel n\u00e3o saiu da garagem. Ficava em cima de cavaletes para n\u00e3o estragar os pneus; depois que ele morreu, a oficina ficou como sempre foi; vov\u00f3 Prazerinhas levantou \u00e0 noite com dor de estomago e tomou veneno para rato pensando que era rem\u00e9dio de estomago. Faleceu uns tr\u00eas dias depois (12 ou 13 de dezembro de 1967), tr\u00eas meses depois da tia Isaura. Eu fui de bicicleta avisar papai no trabalho; cheiro de saudade; o tempo s\u00f3 anda de ida; frango ao molho pardo; as rabanadas que o papai fazia; comprar picol\u00e9 Kibon no bolicho do Icha; \u00ab\u00a0o Icha \u00e9 um ladr\u00e3o\u00a0\u00bb; tio Silv\u00e9rio, que n\u00e3o gostava de bolo, levava um cacho de bananas em festa de aniversario pois n\u00e3o gostava de bolo; tios Silv\u00e9rio e Manuel andavam de bicicleta e usavam uma presilha na cal\u00e7a para n\u00e3o encostar na corrente; pastel de domingo com carne mo\u00edda; colar de p\u00e9rolas do ov\u00e1rio das galinhas; a parreira de uvas verdes; os \u00faltimos ovos crus do mundo; ovo quente com caf\u00e9; a tia Menina era uma figura; na casa dela em C\u00e1ceres tinha um telefone \u00e0 manivela; o tio Enedino que dizia que \u00e9 o aniversariante que da presente pro padrinho; o apelido dele era \u00ab\u00a0Penduradinho\u00a0\u00bb : quando era pequeno, se pendurava nos bra\u00e7os da vov\u00f3 para n\u00e3o apanhar; o cientista no quintal &#8211; tinha um laborat\u00f3rio de qu\u00edmica e uma oficina de eletr\u00f4nica; eu tinha um manual de v\u00e1lvulas do Instituto Monitor; tinha o subsolo da farm\u00e1cia Drogasil onde eu ia ver os produtos qu\u00edmicos; os vendedores me chamavam de Z\u00e9 Bombinha; o acidente com acido n\u00edtrico que explodiu na minha cara e deixou manchas amarelas de albumina por algum tempo; mam\u00e3e n\u00e3o estava em casa e Lucenne me levou de t\u00e1xi no consult\u00f3rio do Doutor Vasconcelos; fiz curso de datilografia na Escola Olivetti e curso de eletr\u00f4nica por correspond\u00eancia no Instituto Universal Brasileiro; no final do curso de eletr\u00f4nica eu montei um radio \u00e0 v\u00e1lvulas; os ovos azuis; a gelatina colorida dos turcos; o sebo de carneiro em bast\u00e3o; pacu assado recheado com farofa; rel\u00f3gios incertos; o fog\u00e3o \u00e0 lenha no galp\u00e3o; a geladeira \u00e0 querosene; alvorada da fanfarra do Col\u00e9gio Dom Bosco de madrugada no dia 26 de agosto. Meu instrumento era caixa; la pelos 6 anos comecei \u00e0 estudar piano. Queria aprender \u00e0 tocar violino. Parei o piano e n\u00e3o aprendi violino; nossos cachorros : Baronesa, Lobo, Danger e Laika e Pablo; no quintal tinha um limoeiro, mangueira, bambuzal, parreira, mandioca, galinhas e um porco; a galinha da Lucenne se chamava Sete de Setembro; tive uma caganeira depois de comer uma caixa inteira de uvas pretas; passeio pela cidade no caminh\u00e3o do Edmundo; levantar e tomar Martini de madrugada na cama dos velhos em dia de aniversario; tinha medo de \u00ab\u00a0olho de fogo\u00a0\u00bb, Lucenne me sacaneava com isso; copinhos com riscos dourados; porre de vinho quando mam\u00e3e tinha viajado para S\u00e3o Paulo; o quarto com livros at\u00e9 o teto na casa do tio Eduardo &#8211; meu para\u00edso; tio Eduardo dizia da Lucenne pra mam\u00e3e : \u00ab\u00a0Essa tua filha vai te dar muito trabalho. Olhe a mini saia que ela usa.\u00a0\u00bb; livros de esoterismo; \u00ab\u00a0papai \u00e9 bruxo\u00a0\u00bb; cesta de documentos em cima da cristaleira; o bufet de formica cor de rosa na copa; a geladeira com pinguim na ma\u00e7aneta; ventilador e lanterna em cima mesa do casamento da Lucenne (caso falte luz); a campainha no alto da escada para chamar os tr\u00eas bugres : um toque para Helena, dois para Lucenne e tr\u00eas para mim; n\u00famero do telefone 2741; a telefonista anunciando tr\u00eas horas de espera para telefonar para tia Zilda em S\u00e3o Paulo; tia Zilda e tio Eduardo, irm\u00e3o da mam\u00e3e, moravam em S\u00e3o Paulo, na rua Diana 919; mam\u00e3e tocando \u00ab\u00a0La Cumparsita\u00a0\u00bb no piano; Henriqueta b\u00eabada dan\u00e7ando; a garrafinha de Fimatosam com vinho para Henriqueta levar para casa e as freiras nem desconfiavam; \u00ab\u00a0Ih, ficou forte, coloca \u00e1gua. Ih, esta fraco, bota mais vinho\u00a0\u00bb; o cabelo da Henriqueta era uma coisa : uma instala\u00e7\u00e3o; usava perfume Lancaster vencido; a casa em que nascemos virou sex-shop; caquinhos da obra na escada; viagem de trem at\u00e9 Corumba, pernoite e avi\u00e3o DC-3 da Cruzeiro do Sul at\u00e9 C\u00e1ceres; viagem de trem para S\u00e3o Paulo com baldea\u00e7\u00e3o para litorina em Bauru; depois, fizeram uma estrada de terra e o \u00f4nibus da Via\u00e7\u00e3o Motta levava 24 horas para chegar at\u00e9 S\u00e3o Paulo; tomar guarana no Restaurante Bambu no domingo depois da missa na Igreja S\u00e3o Jos\u00e9; o doutor Licurgo e a cadeira de dentista &#8211; a broca era tocada com pedal; o elevador pantogr\u00e1fico do pr\u00e9dio, de vez em quando funcionava, quando tinha luz; a Terezinha, secretaria do doutor Vasconcelos; o filho, doutor Fernando de Vasconcelos e o doutor Edgar Sperb eram os pediatras da cidade; rem\u00e9dio para garganta era Vick Vaporub em len\u00e7o em torno do pesco\u00e7o e leite queimado com a\u00e7\u00facar; atrasar o rel\u00f3gio da copa, s\u00e1bado \u00e0 noite para poder chegar mais tarde; brincadeiras no Clube Surian e no Circulo Militar; Lucenne sonambula fez xixi no ch\u00e3o da cozinha e dizia \u00ab\u00a0Sapini da sa\u00edda\u00a0\u00bb; o Z\u00e9 Ivan conseguia tocar a ponta do nariz com a l\u00edngua; capil\u00e9 de p\u00eassego; o vizinho, (Nosso Presidente\u00a0\u00bb falando dele mesmo no alto-falante da sede da Servistrada em dia de feira; a musica que tocava o tempo todo : \u00ab\u00a0Brrrrr&#8230; Preciso me cuidar, Sen\u00e3o, Eu vou pra Ja-ca-re-pagu\u00e1\u00a0\u00bb; seu Jos\u00e9 mascando fumo de corda; Filhinha era uma vizinha solteirona que namorava o Carregal que era inspetor de casado; a vizinha dona Katira, sempre b\u00eabada; papai matando galinha; peru tomava cacha\u00e7a e ficava b\u00eabado antes de ser morto; a marca do piano era Loreley; o acorde\u00e3o vermelho laqueado da Lucenne, marca Todeschini; a vizinha que era apaixonada por Vanderlei Cardoso (acho que nunca se casou); o telefone toca, Lucenne atende, papai diz : \u00ab\u00a0Se for o Bode (apelido), diga que n\u00e3o estou\u00a0\u00bb, Lucenne grita : \u00ab\u00a0Pai, \u00e9 pro senhor, \u00e9 o Bode\u00a0\u00bb; botei fogo na garagem. Mam\u00e3e veio ver e eu disse : \u00ab\u00a0M\u00e3e, n\u00e3o olhe para este lado&#8230;\u00a0\u00bb; matar lagartixas no muro do col\u00e9gio das freiras com estilingue; soltar pandorga (pipa) com cerol na linha; eu fazia eu mesmo minhas pandorgas e como linha usava um carretel de 200 metros de linha 24; assistia filme de Cantinflas, entre outros, no cinema Rialto; tinha tr\u00eas cinemas na cidade : Rialto, Santa-Helena e Alhambra; antes das matin\u00e9s de domingo a garotada se reunia em frente do cinema para trocar Gibi; tomar banho de chuva; a cabana no quintal feita com restos de constru\u00e7\u00e3o &#8211; tinha at\u00e9 luz; soltei uma bombinha na aula do Yazigi. A aula era na faculdade de direito. Pensaram que era um atentado. Me contaram que o Padre diretor da escola levantou a batina para descer a escada correndo. Fui expulso; papai dizendo : \u00ab\u00a0Quer falar comigo, vem aqui\u00a0\u00bb; antes de dormir : \u00ab\u00a0A ben\u00e7a, pai. A ben\u00e7a, m\u00e3e\u00a0\u00bb; papai servindo caf\u00e9 na cama de manh\u00e3; quando a Helena estava brava : \u00ab\u00a0boca de jiripoca\u00a0\u00bb; canteiro de d\u00e1lias e melancia amarela na frente da casa; papai correndo atr\u00e1s da gente para dar inje\u00e7\u00e3o : \u00ab\u00a0Eu estudei veterin\u00e1ria\u00a0\u00bb; seringa de inje\u00e7\u00e3o com agulha torta que fervia no \u00e1lcool; sopa de milho verde com cabelo; \u00ab\u00a0Leite de camelo\u00a0\u00bb, receita inventada; a casa com garagem sem carro; \u00ab\u00a0Forram-se botoes\u00a0\u00bb; padrinho Vicente hipocondr\u00edaco que viajava com uma mala que s\u00f3 tinha rem\u00e9dios e uma lampada infravermelha, caso fosse necess\u00e1rio; o fedelho, filho do primo (n\u00e3o lembro o nome) fazendo pirra\u00e7a para o pai : \u00ab\u00a0Voc\u00ea tem chifre at\u00e9 no dente\u00a0\u00bb; tio Z\u00e9 Vilar, sonambulo, levantando um lado da cama pensando que era um muro caindo em cima da tia Isaura, que j\u00e1 tinha ca\u00eddo do outro lado : \u00ab\u00a0Sai de baixo, Isaura. N\u00e3o aguento mais segurar o muro.\u00a0\u00bb; N\u00e9lson Dantas era filho da tia Isaura. Ele tinha uma frota de t\u00e1xi a\u00e9reo. O irm\u00e3o morreu em um acidente pilotando um avi\u00e3o teco-teco, bateu em um morro. N\u00e9lson trouxe os restos do irm\u00e3o em um saco e teve um ataque card\u00edaco quando pousou; depois que ele morreu, deram o nome dele ao aeroporto de C\u00e1ceres; ele tinha um Galaxie, sempre chique, bem vestido, sempre com \u00f3culos Rayban; Gracinda era a esposa do N\u00e9lson, tinha p\u00e9 pequeno de crian\u00e7a quase; tinham tres filhos : Regina, Nelsinho e Katia; numa feita, Gracinda mandou Nelsinho, tomar banho. Como estava demorando foi ver e o encontrou com um guarda-chuva lendo gibi embaixo do chuveiro; o Jo\u00e3o Bastos, irm\u00e3o do tio Z\u00e9 Vilar, era um vidro de perfume ambulante com gomalina no cabelo para esconder a velhice; o espelho com moldura vermelha na sala; o casar\u00e3o da vov\u00f3 Prazerinhas em C\u00e1ceres (saudades dela) e as frutas : caju, coco, bocaiuva (chiclete de pobre); jabuticaba, bocaiuva e guavira se vendia por litro, medido em uma lata de \u00f3leo; mam\u00e3e trapaceava no jogo de baralho e o papai sabia mas n\u00e3o ligava; jog\u00e1vamos bingo e scopa; os tentos do jogo eram caro\u00e7os de araticum; Dona Mercedes vendia as chipas paraguaias mais deliciosas da Terra; Flauzina era a enfermeira que aplicava inje\u00e7\u00e3o &#8211; no tempo livre ela vendia produtos da horta : alface, couves tristes e tomate; tinha o vendedor de biju que passava com a matraca; tinha tamb\u00e9m o vendedor de quebra-queixo ou de uma gelatina vermelha coberta com coco ralado, era bom mas do que era feita ficou sendo um mist\u00e9rio; \u00edamos, de vez em quando, visitar o Tio Pedrinho e Tia Bianir &#8211; de noite, o papai levava um 38 no bolso, caso houvesse uma emboscada no caminho. Os homens ficavam conversando com o revolver no ch\u00e3o, caso fosse necess\u00e1rio. O fedelho aqui ficava ao lado fingindo que entendia de politica. Acho que eles tamb\u00e9m fingiam&#8230;; tio Pedrinho era alegre e engra\u00e7ado : baixinho, cabelo ralo penteado pra tr\u00e1s e meio metro de nariz; nunca soube se papai era de direita ou esquerda, mas ele n\u00e3o gostava de ladroes; Tia Bianir era bem mais alta que Tio Pedrinho, mas para crian\u00e7a todo adulto \u00e9 enorme; tinham dois filhos que estudavam agronomia em Minas Gerais; Tio Pedrinho nos levava de volta no fusca de cor azul calcinha. Eramos seis mas ainda cabia mais um elefante com unhas pintadas; us\u00e1vamos o t\u00e1xi do Higa, um Simca Chambord verde lim\u00e3o; o escrit\u00f3rio onde minha irm\u00e3 Lurdes trabalhava tinha um monte de maquinas de escrever, aquelas antigas maquinas pretas, e papel carbono; foi la que resolvi aprender datilografia; Lourdes faleceu no ano passado com 88 anos; quando papai chegou em Campo Grande, \u00ab\u00a0matava-se gente como se mata cachorro na rua\u00a0\u00bb; alias, \u00ab\u00a0se jogar uma pedra em um cachorro, erra o cachorro e acerta nove advogados, cinco dentistas, quatro engenheiros e tr\u00eas m\u00e9dicos\u00a0\u00bb; papai tinha um rel\u00f3gio Omega de algibeira; no Col\u00e9gio Dom Bosco tinha missa toda quarta feira e reza todo dia antes da aula que come\u00e7ava \u00e0s 7h10 da manha; eu era \u00ab\u00a0coroinha\u00a0\u00bb e ajudava na missa; papai mudou a minha data de nascimento para eu poder entrar no gin\u00e1sio &#8211; n\u00e3o tinha idade; no final da aula da manh\u00e3, \u00edamos ficar na frente do Col\u00e9gio Auxiliadora esperar a sa\u00edda das meninas; meu primeiro amor foi a M\u00e1rcia, um amor plat\u00f4nico, eu deveria ter uns 11 ou 12 anos, mas a gente se gostava, ficava s\u00f3 no olhar; uma vez ficamos conversando num canto, ela estava bonita com um vestido de florezinhas pequenas e coloridas; depois eu era apaixonado pela Beth mas ela nunca me deu bola &#8211; a concorr\u00eancia era rude e eu era t\u00edmido; uma tarde ela me ofereceu um \u00ab\u00a0sunday\u00a0\u00bb na lanchonete das Lojas Americanas &#8211; foi assim que me apaixonei por ela, mas para ela eu era apenas um amigo; aos domingos, na pra\u00e7a do centro da cidade, ao lado do rel\u00f3gio, tinha musica ao lado da fonte luminosa; a \u00fanica rua asfaltada era a 14 de julho; no final dos anos 60 compramos uma televis\u00e3o preto e branco &#8211; eu assistia desenhos de Tom &amp; Jerry e Johnny Quest na \u00fanica emissora, a TV Morena; tinha pesadelos quando assistia filmes da s\u00e9rie \u00ab\u00a0Os Invasores\u00a0\u00bb, com David Vincent, na televis\u00e3o; no radio, aos s\u00e1bados \u00e0 tarde, escut\u00e1vamos historias do tipo Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve ou Guliver; Lucenne e Helena gostavam do programa \u00ab\u00a0N\u00e3o diga N\u00e3o\u00a0\u00bb; as vezes papai se sentava na varanda para tomar uma cerveja, quente, em uma cadeira de tirinhas de pl\u00e1stico verde ou vermelha; no Col\u00e9gio, fizemos uma excurs\u00e3o at\u00e9 o Sul : visitamos Curitiba, Porto Alegre, Canelas, Florian\u00f3polis. O respons\u00e1vel era o Padre Marinoni; o apelido do professor de Latim era \u00ab\u00a0Ego ero\u00a0\u00bb &#8211; n\u00e3o me lembro o nome dele; o professor de Qu\u00edmica era o Padre Luiz Marconetti, o de F\u00edsica era o Max (um tipico alem\u00e3o que tinha uma caminhonete Ford 29 verde clara), o professor de matem\u00e1tica era o Benjamin, Arlinda Cantero de portugu\u00eas, Toninho Dorsa de biologia, dona Francisca de franc\u00eas e o conselheiro era o Padre Geraldo cujo apelido era Frang\u00e3o pois ele tinha um pesco\u00e7o comprido e vermelho; Padre Luiz me dava nota sem corrigir. Eu percebi quando eu errei em uma quest\u00e3o e ele colocou que estava certa; n\u00e3o gostava de dar cola. Em uma feita, o Z\u00e9 Carlos tentava colar e eu escondia a prova com o bra\u00e7o. Ele entregou a prova em branco. Quando passou ao meu lado, descarregou a caneta tinteiro na minha prova; ao lado do col\u00e9gio tinha uma torrefa\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 que perfumava o ambiente no final da manh\u00e3; o prim\u00e1rio eu fiz no Externato Americano, cuja diretora era a professora J\u00falia; o uniforme era um short azul vivo e uma camisa com motivo xadrez bem mi\u00fado; a arvore de natal tinha algod\u00e3o nos galhos e bolas vermelhas e azuis. Cada ano sobravam menos bolas; no Natal, papai fazia rabanada; quase todo dia no final da tarde eu levava uma garrafinha de Coca-Cola com leite para o papai, no trabalho; nos mudamos para o sobrado no dia 5 de dezembro de 1962, eu tinha 5 anos; ia com mam\u00e3e fazer compras de tecido nas Casas Pernambucanas &#8211; foi assim que aprendi que o tempo de espera \u00e9 el\u00e1stico; a Loja Cliper, do seu Jo\u00e3o, vendia tecidos de luxo pela \u00ab\u00a0hora da morte\u00a0\u00bb; o fedelho dan\u00e7ava quadrilha fantasiado de ga\u00facho com chap\u00e9u, bombacha, bota com esporas, guaiaca e revolver de pl\u00e1stico \u00e0 espoleta; meu sobrinho mais velho casou na delegacia pois \u00ab\u00a0fez mal pra mo\u00e7a\u00a0\u00bb &#8211; eu tinha 8 anos. N\u00e3o teve festa; mam\u00e3e explicava as piadas que contava, como se precisasse; quando eu viajava para Bela Vista com papai, \u00edamos depois do jantar no bolicho do seu Nestor e dona Fel\u00edcia conversar com amigos; na frente do balc\u00e3o tinha sacos grandes de 60 quilos com arroz, feij\u00e3o, macarr\u00e3o, farinha e coisas desse tipo; papai comprou do seu Nestor outro rel\u00f3gio de algibeira, um Longines; Campo Grande era grande, tinha dois puteiros : Bonanza e Chacrinha, mas eu nunca fui; alguns presentes de aniversario : um \u00ab\u00a0Engenheiro Eletr\u00f4nico\u00a0\u00bb da Philips, uma maquina de escrever Remington 21, um rel\u00f3gio cronometro comprado na loja Avelino dos Reis (Ivan tinha um igual, mas o mostrador do meu era preto e o dele branco), um microsc\u00f3pio, a cole\u00e7\u00e3o de livros \u00ab\u00a0Tesouro da Juventude\u00a0\u00bb em 18 volumes (tenho at\u00e9 hoje); mam\u00e3e lia a revista \u00ab\u00a0Jornal das Mo\u00e7as\u00a0\u00bb e papai lia \u00ab\u00a0Folha de S\u00e3o Paulo\u00a0\u00bb ou \u00ab\u00a0Ultima Hora\u00a0\u00bb; papai lia at\u00e9 dicionario; chinelo era psicologo familiar; encontramos cartas trocadas entre papai e mam\u00e3e quando eram namorados. Ela dizia para ele tomar Maracujina; mam\u00e3e ficou brava por termos fu\u00e7ado nessas lembran\u00e7as; o guarda roupa deles era uma \u00ab\u00a0caverna de Ali Baba\u00a0\u00bb; de vez em quando, na frente do col\u00e9gio tinha um aglomerado de gente em torno de um vendedor de lo\u00e7\u00f5es milagrosas. No meio tinha uma mala com uma cobra jiboia; eu tinha uma bicicleta Caloi Rubronegra vermelha e preta. Aprendi \u00e0 andar no dia em que fiz minha Primeira Comunh\u00e3o; a bicicleta tinha d\u00ednamo, farol e lampadinhas mas eu s\u00f3 saia de dia; papai caiu da bicicleta indo para o trabalho e teve que tirar \u00e1gua do joelho; no col\u00e9gio Dom Bosco, o castigo era copiar dez vezes o Hino Nacional ou contar pastilhas (ladrilhos) do corredor : \u00ab\u00a0comece aqui e v\u00e1 at\u00e9 aquela porta\u00a0\u00bb; perto de casa morava o General Amadeu, casado com dona Augusta. Ele gostava de conversar comigo e me chamava. Lucenne dizia que a esposa dele era a Vov\u00f3 Donalda. Acho que n\u00e3o tiveram filhos; conversava tamb\u00e9m com o Coronel Arnaldo, pai da L\u00facia e da Liane : ele tinha feito o curso de eletr\u00f4nica no Instituto Monitor e eu no Instituto Universal Brasileiro. Ele me emprestou alguns livros de eletr\u00f4nica; papai dizia : \u00ab\u00a0Se apanhar na rua, apanha mais uma vez em casa para aprender\u00a0\u00bb; no prim\u00e1rio tinha o Asturio na mesma classe, um sobrinho mais velho do que eu. Um dia eu disse para ele me esperar na sa\u00edda. N\u00e3o esperou. ainda bem; tinha vontade de ter um autorama. nunca tive. n\u00e3o fez falta; tinha um carrinho de lata que funcionava com fric\u00e7\u00e3o, coisa da \u00e9poca, com o Pato Donald como condutor. Quando empurrava, Donald balan\u00e7ava a cabe\u00e7a. Um dia deixei na varanda na frente da casa, desapareceu; gostava de brinquedos de constru\u00e7\u00e3o com porcas e parafusos; um domingo, depois da missa, ganhei uma nota de dinheiro. N\u00e3o me lembro se era uma de 5 cruzeiros do Bar\u00e3o do Rio Branco ou a de 1000 do Cabral. Papai abriu uma caderneta de poupan\u00e7a. O dinheiro ainda deve estar la; a minha primeira escritura, que eu me lembro, foi uma carta para minha av\u00f3 Prazerinhas, em um papel de embrulho ou rascunho cinza e letras de imprensa; papai, portugu\u00eas, tinha pouco sotaque, exceto quando ficava bravo. Ai ent\u00e3o&#8230; ; \u00e0s vezes ele cantarolava a \u00fanica can\u00e7\u00e3o que conhecia : \u00ab\u00a0E tu fostes ao senhor da serra e nem um anel me trouxestes. E nem o mouro da mourama fazia o que tu fizestes&#8230;\u00a0\u00bb Procurei na Internet e encontrei uma velha portuguesa cantarolando&#8230;; gostava de piadas de portugu\u00eas. Sempre as mesmas historias; \u00ab\u00a0mando-lhe duas cartas, uma dentro da oitra, se n\u00e3o recebeires uma recebes a oitra\u00a0\u00bb; \u00ab\u00a0Juequim, \u00f4 Juequim ! Qual \u00e9 mesmo a apelido que pusestes no .. da tua m\u00e3e ?\u00a0\u00bb; portugueses n\u00e3o trocam o b pelo v, quem troca s\u00e3o os \u00ab\u00a0vrasileiros\u00a0\u00bb; para ele, as melhores piadas s\u00e3o piadas de portugu\u00eas; papai emprestou \u00ab\u00a0Os Lus\u00edadas\u00a0\u00bb de Cam\u00f5es ao Doutor Vasconcelos. N\u00e3o devolveu. Livro n\u00e3o \u00e9 objeto que se possa emprestar; \u00ab\u00a0O que se leva desta vida \u00e9 o que se come, o que se bebe e o que se fode. O resto \u00e9 conversa fiada\u00a0\u00bb; quando ele dizia coisas desse tipo, ele parava olhava com um rabo de olho e um sorriso de sacana esperando nossa rea\u00e7\u00e3o; nossos pais tinham o costume de ficar um pouco no port\u00e3o de case no fim da tarde. Coisas de cidade do interior. Tinha uma senhora que passava sempre e parava para conversar e contar vantagem. Nossos pais tinham um casal cachorros pequin\u00eas : Pink e Toy. Numa tarde os dois cachorros come\u00e7aram a transar na frente da senhora. Papai olha e diz : \u00ab\u00a0Ei voc\u00eas dois. Se quiserem trepar, v\u00e3o la no fundo do quintal. Aqui n\u00e3o \u00e9 lugar. O que a Dona Fulana vai pensar de voc\u00eas dois. ???\u00a0\u00bb. Dona Fulana foi-se embora e n\u00e3o voltou mais, para alegria de nossos pais; tio Enedino era o padrinho da Lucenne, mas o \u00fanico presente que deu para ela foi um anel que ela engoliu enquanto brincava num balan\u00e7o. Encontrou no dia seguinte mas n\u00e3o mais utilizou&#8230;; os padrinhos do Z\u00e9 M\u00e1rcio eram Alda e Vicente Tortorelli, n\u00e3o me lembro de ter ganho presente e n\u00e3o tive mais noticias deles; Helena ganhava presentes do tio Eduardo; crian\u00e7a s\u00f3 pensava em ganhar presentes&#8230;; fomos passar f\u00e9rias em C\u00e1ceres. Nos despedimos da vov\u00f3 Prazerinhas na copa da casa dela. Ela disse : \u00ab\u00a0Eu sei que \u00e9 a ultima vez que nos vemos\u00a0\u00bb. Ela j\u00e1 estava com 90 anos. Ela acertou !; anos depois nossa m\u00e3e, tamb\u00e9m com 90 anos foi passar alguns dias em Pindamonhangaba e disse \u00e0 Lucenne : \u00ab\u00a0Eu n\u00e3o vou voltar\u00a0\u00bb. Ela estava certa !<\/p>\n<p>Lucenne e Z\u00e9 M\u00e1rcio<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><code id=\"envira_shortcode_1023\"><\/code><\/p>\n<p><code id=\"envira_shortcode_988\"><\/code><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos irm\u00e3os, Lucenne e Jos\u00e9-M\u00e1rcio. Nascemos em Campo Grande, terras encharcadas, aquelas terras que escancaram suas portas para as \u00e1guas do rio Paraguai formando assim desenhos transparentes cobertos de tintas azuis das \u00e1guas e verdes das matas : o Pantanal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-946","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-perso","comments-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/946","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=946"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/946\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1169,"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/946\/revisions\/1169"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=946"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=946"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.jose-marcio.org\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=946"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}